Foram precisos mais de 120 dias de trabalho para que a Sardinha tivesse a sua festa. Junto ao edifício da capitania, à beira do rio Arade, a estrutura que suportou o 1.º Festival da Sardinha e do Mar levou quatro meses a montar. Ninguém sabia se os portimonenses viriam… Vieram cerca de 15 mil – e uma tradição que já era secular na faina passou também a ser uma festa.
No ano em que Portugal entrava na Europa, a festa mais portuguesa de Portimão fazia-se a dois passos da lota: de manhã descarregava-se a sardinha a sério, à noite assava-se em festa.
O Festival da Sardinha e do Mar confrmava, à 2.ª edição, que tinha vindo para fcar.
Foi o ano em que o FC Porto e o calcanhar mágico de Madjer conquistaram a Europa em Viena — e o último em que a sardinha se descarregou no cais de Portimão.
Depois do Verão, a lota atravessou o rio, e a zona ribeirinha, que durante décadas acordara com a sirene e o leilão à boca, cou em silêncio.
O Festival, na 3.ª edição, festejou ao lado da faina pela última vez – sem saber que dali em diante seria ele o guardião daquela memória.
A lota atravessara o rio no ano anterior – e Portimão respondeu com a edição mais longa de que há memória: 16 noites seguidas, de 5 a 20 de Agosto, sempre com um rancho folclórico a abrir. Pelo palco passou meio país, entre eles, Marco Paulo, Cândida Branca Flor, Onda Choc, José Cid, Lena d’Água e Carlos do Carmo. No ano em que Rosa Mota corria pelo Ouro em Seul, Portimão corria a sua própria maratona de sardinha no pão.
A 5.ª edição encheu a Ribeirinha, de 4 a 19 de Agosto, de arcos iluminados de sardinhas e ores. Mas o mais bonito era para onde ia o dinheiro: as receitas revertiam para a solidariedade no concelho – e as 40 mil entradas do ano anterior tinham rendido mais de dois milhões de escudos, repartidos para o apoio aos idosos, às crianças e aos Bombeiros, com direito a um gravador de vídeo para a Escola Secundária Poeta António Aleixo e um carrossel para o jardim infantil da Mexilhoeira Grande.
Na publicação oficial da 6.ª edição, escreveu-se sem rodeios que décadas antes, Portimão tinha 80 embarcações e 30 fábricas; agora restavam menos de 10 barcos e duas fábricas, “provavelmente para tudo acabar a curto prazo”. E rematava-se: “ainda se podem comer sardinhas assadas… por enquanto”. Lá fora, a festa seguia — os primeiros jogos do Festival, a Filarmónica, flippers e carrossel. Seria a última edição do Festiva da Sardinha e do Mar. Mas ficou, como se escreveu, “uma memória que consideramos agradável”.
Depois de 10 anos de interregno, o Festival da Sardinha voltou a Portimão. Realizou-se entre 27 de Julho e 5 de Agosto, pela primeira vez, no recém-inaugurado Parque de Feiras e Exposições, junto ao rio Arade. Perdeu a palavra “Mar” do nome original e ganhou 10 dias de música, artesanato e um bailado piro-aquático a fechar cada noite. 100 toneladas de sardinha assada no pão bastaram para conrmar que a festa era há muito aguardada.
Foi o primeiro Festival da Sardinha pago na moeda nova: o escudo saíra de circulação em Fevereiro e o bilhete custava agora 3 euros. Lá dentro, tudo no seu lugar — o bailado piro-aquático a encher o céu de luz às 23h30, o artesanato, as farturas. No ano em que o Mundial se jogou na Coreia e no Japão, a “catedral da sardinha assada” conrmava que o regresso não tinha sido um acaso.
No Verão mais quente de que havia memória, Portimão respondeu com 10 noites de festa à beira do Arade. O cartaz ia de Marco Paulo a Jorge Palma e fechava, a 10 de Agosto, com a artista brasileira Gal Costa. A zona de restauração tinha agora 1.600 lugares sentados e o bilhete continuava a custar 3 euros, com o piro-aquático a iluminar o rio todas as noites às 23h30.
No Verão em que Portugal recebeu o Euro e chorou na nal contra a Grécia, o Festival estreou o seu próprio campeonato: o “Papa Sardinhas”, 15 minutos para comer o máximo de sardinhas assadas. O cartaz ia de Martinho da Vila a Mariza — que cantou na noite em que Atenas abria os Jogos Olímpicos — , com a Banda Eva a fechar 10 dias de festa à beira do Arade.
No ano em que o mundo descobria uma plataforma online chamada YouTube, em Portimão o espectáculo continuava a ser ao vivo: oito restaurantes, 1.600 lugares sentados e a final do “Papa Sardinhas” a coroar o melhor garfo do certame. Novidade na bilheteira: além dos 3,50 euros por dia, nascia o cartão festival — 10,50 euros e portas abertas todos os dias.
O Guinness atestou: na véspera da abertura, Portimão bateu o recorde do mundo da maior sopa — um arjamolho gigante de 7.470 litros, preparado na Ribeirinha pela Confraria dos Gastrónomos do Algarve, com 600 quilos de pão, 400 de tomate e 300 litros de azeite. Era o aperitivo à altura do regresso do Festival à beira-rio, onde o velho cais recriava a descarga do peixe de antigamente e no “Papa Sardinhas” havia um recorde a bater: 49 sardinhas em 15 minutos.
No ano em que o primeiro iPhone foi lançado, Portimão media a festa noutra escala: 75 mil visitantes e sete toneladas de sardinha consumida nos oito restaurantes do recinto. Na mesma zona ribeirinha, a World Press Photo percorria a sua estreia nacional, e no “Papa Sardinhas” havia um campeão a destronar — Osmar, que em 2006 comera 50 sardinhas em 15 minutos.
Foi o ano em que a Sardinha ganhou casa e palco. Numa antiga fábrica de conservas nascia o Museu de Portimão, guardião da memória de quem fez desta indústria vida. Na noite em que Pequim inaugurava os Jogos Olímpicos, o Arade recebia um espetáculo total: os catalães La Fura dels Baus atracaram o barco-teatro Naumon na Ribeirinha e ergueram sobre o rio a “Naumaquia”, com gigantes, marionetas e mais de 30 voluntários portimonenses a dar corpo a um cenário humano em movimento.
10 anos depois da sua morte, Amália voltou a ser o disco mais vendido do país: o fenómeno Amália Hoje pôs uma nova geração a cantar “Gaivota” — e trouxe essa homenagem ao palco do Festival. Ao lado, Carlos do Carmo, Xutos & Pontapés e Deolinda em plena estreia fulgurante. Pela segunda vez, o Allgarve Gourmet trouxe chefs conhecidos a reinventar a tradição — mas a Rainha continuou a ser a sardinha.
O mundo passou o Verão a zumbir ao som das vuvuzelas do Mundial da África do Sul; Portimão preferiu outra banda sonora. De Rui Veloso a Pedro Abrunhosa, de Ana Moura a Xutos, foram 10 noites ao som de reis da música portuguesa — e uma estreia para os súbditos mais pequenos: o Menu Kid. No fecho, a 15 de Agosto, um show piro-musical prometia “um céu brilhante como nunca se viu”. E cumpriu.
Foi o ano em que a tróika chegou a Portugal – e em que o Festival respondeu à sua maneira: aliou o recinto ao Museu, juntando a festa à memória, e abriu o palco das 21h30 às bandas da terra.
Dulce Pontes inaugurou as 11 noites; no fecho, um acontecimento raro — os Trovante, de regresso aos palcos, provaram que em Agosto, à beira do Arade, até os nais são adiados.
Enquanto Londres vivia os seus Jogos Olímpicos, em Portimão soava outra vez a sereia da antiga fábrica Feu — agora Museu. Era o sinal de partida do “Há Sardinha no Cais”, o teatro de rua do Chapitô que todas as tardes guiava os visitantes pela margem do Arade, da memória conserveira até à festa, de regresso ao Parque de Feiras e Exposições.
Um ano de renovação: novo logótipo, recorde de expositores — e o som que durante décadas chamou ao trabalho, a chamar agora à festa.
Sem recinto, sem bilhete, sem cartaz de nomes sonantes: em 2013 a sardinha provou que não precisava de mais nada. Junto à Antiga Lota montou-se um arraial algarvio como os de antigamente — bailes ao som de acordeonistas, ranchos folclóricos, farturas e polvo assado — e o convite era simples: vir a Portimão, Capital da Sardinha Assada, e comê-la onde ela sempre soube melhor, nos restaurantes da cidade, na zona entre pontes e o Largo da Barca.
No ano em que Portugal saiu da tróika, a festa provou que o essencial chegava: mais de 45 mil pessoas na Ribeirinha, meia tonelada de sardinha no pão vendida pelas coletividades da cidade — a quem a organização não cobrou um cêntimo, em nome do associativismo
que esteve na origem do certame. No palco da Antiga Lota, José Cid e Os Azeitonas dividiram as noites com a prata da casa. A festa tinha voltado a ser de quem a fez nascer.
No palco atuava um miúdo de Faro, acabado de vencer os Ídolos, chamado Diogo Piçarra — ninguém adivinhava ainda o fenómeno que aí vinha. Tony Carreira abriu, António Zambujo fechou, e pelo meio a festa estendeu-se do Museu até às pontes: seis restaurantes, a sardinha no pão das coletividades, a Feira do Livro, magia no TEMPO — e uma cidade inteira a pintar sardinhas nas paredes de uma antiga fábrica conserveira.
Um mês depois do golo do Éder em Paris, o país ainda festejava — e Portimão juntou-se à festa espalhando a Sardinha pela cidade inteira. Foi o ano do recorde: 28 estabelecimentos aderentes, entre os quais 13 de selo “Aqui há Sardinha!” e 15 de “Sardinha & Companhia”,
onde a Rainha se atreveu a ser provada em pizza, bifana e até doce no. No palco, Deolinda, Carminho e Herman José. Campeões da Europa; campeões da brasa.
No ano em que Salvador Sobral dava a Portugal a primeira vitória de sempre na Eurovisão, Portimão cantava mais fundo: o “Alar da rede”, encenado ao som do “Arribalé” pelo Grupo Coral de Portimão e pela Orquestra de Acordeões de Lagos, abriu o Festival diante de 15 mil pessoas. Na Antiga Lota, mãos experientes remendavam redes de traineira e iscavam aparelhos de Alvor — a faina feita memória viva, com a sardinha no pão a 2,20 euros.
No ano em que o Guinness certicou a maior onda alguma vez surfada — 24 metros de Atlântico, na Nazaré —, o mar português andava nas bocas do mundo.
Em Portimão preferia-se ele no prato: 50 mil visitantes tinham passado pelo Festival de 2017 e os oito restaurantes da insígnia “Aqui há Sardinha!” queriam mais. No palco, Matias Damásio, Raquel Tavares e — ironia saborosa num festival de sardinha — uma Bacalhau: Ana, a solo. No Museu, brinquedos de lata brilhavam na antiga fábrica de conservas.
No ano em que Madonna, a viver em Lisboa, gravava um álbum embebido de fado, consta que nem ela tirou os olhos do ecrã quando a RTP1 transmitiu em direto, na véspera da abertura, a descarga da sardinha recriada no cais com trajes e dizeres de outros tempos.
Seguiram-se cinco noites junto ao Clube Naval, uma roda gigante de 38 metros e um recorde esmagador: 100 mil visitantes. A sardinha esgotou. Várias vezes.
Em 2020, Agosto chegou sem Festival — mas na ponte ferroviária acenderam-se as luzes da Sardinha, o símbolo da festa a velar sobre o rio.
Em 2021, a espera ganhou voz no “Sardinha em Concertos”, de plateia sentada e bilhete simbólico de um euro, Resistência, Gisela João e Miguel Araújo cantaram para uma cidade que não podia sequer comer no recinto. A festa esteve dois anos suspensa; a Rainha, essa, nunca abdicou.
Dois anos depois, a Rainha da festa voltou a chamar — e a Europa já tinha respondido: antes ainda de reabrir, o Festival da Sardinha fora eleito o melhor evento gastronómico de Verão da Europa pelo site Big 7 Travel.
Na véspera, meia centena de gurantes recriou a descarga da sardinha no cais, seguida de uma sardinhada popular. E à noite, de Marisa Liz a Bárbara Tinoco, a Ribeirinha reaprendeu em cinco dias aquilo de que nunca se tinha esquecido: festejar.
O reencontro de 2022 tinha batido todos os máximos — 110 mil entradas — e em 2023 o Festival cresceu para dentro: tornou-se ocialmente um evento sustentável. O copo passou a ser reutilizável, os talheres ecológicos, e os 1.600 quilos de restos da festa anterior foram
transformados em fertilizante natural. A sardinha que durante um século alimentou a cidade passava agora a alimentar também a terra. No palco, de Carlão a Tony Carreira, foram seis noites de festa.
Portimão celebrava o centenário da elevação a cidade — e o Festival ofereceu-lhe o presente mais raro em tempos de inação: o Prato Festival mantinha-se sem mexer, com cinco sardinhas, pão, batata e salada à algarvia por 10,50 euros, nas mãos de cinco coletividades da terra.
Ao lado, a novidade: showcookings de chefs convidados com a Confraria Gastronómica da Sardinha de Portimão, provando que a Rainha tanto se serve no tacho da avó como em pratos de autor. Sara Correia, Anjos, Richie Campbell, Marisa Liz e os 40 anos de carreira dos Delns zeram a festa.
Era o grito que fechava o leilão à boca, a ladainha de números cantada em ordem decrescente na muralha do cais.
Em 2025, a recriação da descarga cresceu: 70 figurantes, 600 quilos de sardinha fresca vinda em traineiras ainda no ativo — e, pela primeira vez, o alar da rede, puxada a bordo ao som do “Arribalé”, segundo as recolhas de Michel Giacometti. Mais de 25 mil pessoas
no arranque, Rui Veloso na abertura, e o passado cada ano mais vivo.
41 anos depois dos primeiros 120 dias de trabalho junto à capitania, a festa chega à 30.ª edição. Pelo caminho ficaram dois interregnos e uma pandemia, uma sereia de fábrica que voltou a apitar, um museu eleito o melhor da Europa, recordes de 110 mil entradas — e uma certeza que nunca vacilou: 30 edições a unir gerações em torno da Sardinha. Que venham mais 30!